Mascarada

Mascarada

Editora da Unicamp, 1987

 

 

 

Mimese

Se a vida imita a arte
como punir
o plágio da existência?

 

Estética

Estéril
diante da folha em branco
amasso o bloco
de pedra
que devia talhar

 

Caravana

Um viajante do deserto
vê com ilusão um oásis
de abandono
do oásis iludido
vê-se a miragem
de um deserto líquido
ao sol do olhar do viajante
em solidão

 

Celular

Dá-se que a manhã tecida de começos de ausência
estendeu devagarinho
− primeiro a surpresa
embora fosse de longos anos a espera da partida −
depois a dor aguda da presença da vida
que se despede
aos poucos
se instalando a dor

dor

 

Mascarada

Se disser convicto que minto ao olhar nos seus olhos tristes
não é
verdade seus olhos
meu olhar é vago de incertezas
a mentira é um estado
− covarde −
mas de afirmação

Sou campeão em plantar cidades e desbravar florestas
de alfaces
induzo canários da terra a comerem palha de liberdade
por alpiste
sua resposta não consta senão para retificar meu zelo
em conservar invicta
− o coração resiste −
a atividade insana e consciente de meus erros

Não me lembro de jamais ter chegado atrás
de minha própria face
embora enquanto o mar amedronta a ilha
do meu e do alheio medo
vou me perdendo na verdade de que assim mesmo
a maratona das tristezas será vencida
pelas lesmas dos disfarces

 

Conversação

Fomos nos falando um do outro
as coisas as pessoas os acontecimentos
as máscaras
numa sucessão de comentários
narrados pela estrutura curiosa
dos pequenos dramas nas páginas dos faits-divers

Enquanto caminhávamos
fomos nos curvando ao tempo
que há de tornar-nos horizontais
como um ponto de exclamação
tombado por terra
das surpresas que já não poderemos ter

 

Festejos

Ponderados prósperos os votos e os ventos de prosperidade
todos os anos velhos novos sustos e prolixos que passamos juntos
tantos passaram rápidos que passamos lentos
Abraçamo-nos em ambos com máscaras de felicidade dupla:
a usura generosa da escrita e da leitura
estende como ponte o abraço lupa
entre a caligrafia plástica de um desejo fixo
e a pose fotográfica de um dia em monumento

 

Despojamento

Deitou-se a céu aberto
com chuvas e trovoadas
teve de recolher-se
das estrelas
de sua imaginação

 

Revelação

Não se decepcione
trazendo-me
a novidade
de meu próprio passado

 

Cosmopolita

para Daisy

A idéia é simples
a volta complexa:
não há partida
sem porto de partida

 

Velox

Curvado contra e a favor do vento
o corredor imprime círculos
à sintaxe de seu movimento

 

Escola

No caderno Avante
o escoteiro escoltado
avança a bandeira
para conquistar o passado

 

Modinha

Presente qualquer
quem é que me quer

presente feliz
quem foi que me quis

presente canção
leva meu coração

 

Pronominal

Morrer
são muitas coisas
reunidas
num ato definitivo
entre elas
constituir-se para sempre
na impossibilidade
da anterior multiplicação

 

Clone

Este
sou
você

 

Alteridade

O eu do outro
o outro do eu
o outro do outro:
eu

 

Ciranda

Foi só uma bobagem
e pronto
você ficou moça
eu
velho enquanto

 

Cronos

Nada como um dia
atrás do outro

as noites externas
à solidão

 

Crítica das fontes

Enroscado
no lugar do sujeito histórico
mascando
o chiclete da insonsa fantasia
Sócrates pede que se esqueça
o que não escreveu
como plágio da sicuta
na hora da agonia

 

Persona

Rir do riso
riso sério
rir do sério
riso riso
só rir
mistério

 

Paciência

O centro é feito de tocaias
dorme na mira longa espera
passam palavras-caça
escolho concentro atiro
acerto no etcétera

 

Cidades invisíveis

Eu
Marco Polo
gostaria de ter conhecido
o Grande Khan

 

Mourisco

Se for para fazê-lo
que seja como Deus quem sabe
não com a obstinada lâmina cega do pão
ao invés da consciência bífida do sabre

 

Renúncia

Resta saber com quantos cães
caça-se
com gatos

 

Pós-realidade

Melhor ser virtual
que pecador

 

Paulista

De Angélica a Paraíso
avenida vista monumento mármore
inferno lista purgatório pista
chácaras café casarões bancos passeatas
comemorações de torres de relógio
máscaras
saudades de ter sido o mapa urbis
do olhar abandonado da cidade púbere

 

Tertius

Sempre fui contra
o dissabor
de ser contra
ou a favor

 

Tolstoi

Sabe quando a gente não se viu nunca
mais hoje
quando meu nariz de guerra
seu olhar de paz

 

Obviedade

Nada existe fora de mim
que não seja
a experiência existencial
do outro

 

Aposta

O carinho é feito
de caras
e rinhas de galos
enrugadas

 

Indigência

Cá entre nós
− no abrigo desta confissão de pedra
linha fio de prumo escuro lenha couro −
há um cheiro quente de total descaso
no jeito perfumado de homens mulheres
crianças dinossauros
concentração de ouros que rescendem
cada vez mais poucos
à morte de muitos outros

 

Virtudes

I

A dignidade
− justo é que se diga −
não é peça de museu
tampouco de mobiliário
renova-se
− justo seja que fosse dito –
pelas bordas do tempo
sem perder a fragilidade

 

Virtudes

II

A tolerância
é intolerável
como razão
de si mesma

 

Valsinha

Há duas amoras maduras
na amoreira das vizinhas
nenhuma delas
só umas minhas

 

Zoológico das vaidades

Você galã
eu só
galinha

 

Vagabundagem

Para sempre
o sonho de amor eterno
é cênico fílmico tríptico:
começa no sorvete
termina nos carlitos

 

Mídia eletrônica

Ao passar para o lado
público
o púbere privado
o ministro sem querer
ficou cínico único
pelado

 

Havana’s tide

Del otro lado del Malecón
the Malecón of the other side

 

Comics

Tão duro
tão macho
que dele − mesmo recuperado
de grave doença −
todos diziam − inclusive
os médicos −
que tinha tido
uma insensível melhora

 

Modernidade

A massa ignara
votante
a classe média
voraz
a elite:
az no
volante

 

Relíquia

Pelo traço oblíquo de seus olhos mouros
passa a mina da poesia
que a lâmpada de Aladim
não queima
o tropel alado de carrilhões de ouro
ressoam da maldade ao bem furtivo
dos mandarins da China

 

Epitáfio pobre para um pobre usuário

Morreu como viveu:
duro

 

Retórica

Fala abrupta
de um lugar
de argumento seco

 

Sábado

Depois de amanhã
vou recomeçar vida nova:
ao invés de subir pelas paredes
toda vez que a vejo com felicidade
vou descer a pé
ante pé
a ladeira da saudade

 

Fogos e artifícios

Áspera quando as chuvas de setembro
caem chuvas de verão
lânguida quando as terras rasas dos cafezais
queimam no horizonte o nexo das paisagens
de que lembro
nos olhos na mente no coração
nos dedos que não as tocam
no ventre

Perdi a fogueira de São João na Fazenda Resfriado
por um jogo de futebol no campo da Associação
[Atlética Salense
Nem era eu que jogava por iniciativa minha própria
era o entusiasmo o time o folguedo a amizade
o companheirismo era meu irmão
que calculou mal o tempo da passagem do Ford Bigode
que não nos levou
o Ford passou a fogueira queimou o tempo passou

Quando cheguei no dia seguinte de charrete
cedo só
as cinzas quentes da alegria de ontem
menino fiquei parado olhando a lembrança
que tenho do que perco
fiz xixi no que sobrou da festa
e fui brincar com os filhos do campeiro no curral de vacas
e bezerros obedientes à sua e à minha solidão

 

Comboio

Num ponto você tem razão:
a corda bamba da tristeza
sempre quebra
do lado do coração

 

Segundo domingo depois do primeiro

Sabedoria cristalizada de provérbio:
domingo sem missa
segunda sem preguiça
não há

Em Sales Oliveira
de segunda à segunda sem solução de continuidade
o comércio abria para o descanso trabalhoso
dos colonos nas trocas nas compras nas vendas
nos sábados antecipados de monotonia
na escuridão silenciosa e trôpega dos caminhos
de volta às fazendas

Dia do Senhor
domingo de todos os santos
sexta da paixão quinta-feira santa
sábado de aleluia
domingo de ilusão

Visto da selaria onde meu pai e meu tio
− depois de meu avô –
atasanavam o couro a ferrugem
a efemeridade férrea dos arreios
o domingo era hoje nos olhos do menino
o tempo domador do poeta adulto
a fera vida do poeta moço
o padrasto aflito do escritor astuto

Porque é domingo novo
− e não de novo sábado segunda quinta
sábado outra vez −
touros elegantes estilhaçam aquários de metáforas
cheios de marfins

Ninguém atende se o telefone toca
e se não toca
fica a hipótese de que seja bom e natural assim:
a simplicidade da vida
a vida simples patética
num átimo
complexa

 

Saudades

Sentei-me à mesma mesa
no mesmo local
o mesmo garçom
no mesmo restaurante
em que
nunca estive
antes

 

Contensioso

Solene e triste
o cotidiano não é
a menos de ser
como flor entristecida
polemizado

 

Faz de conta

O poeta cigarreiro
quando chegam violentas as águas curtas
de setembro
lembram a coleção de maços vazios
nos bolsos das calças turvas
dobrados como dinheiro

 

Liça

Para quem lê
o que escreve
o sonho do peixe-espada
é terçar lanças com o velho
e o mar

para o peixe-espada
o disfarce de um no outro
é

esgrimir-se de toda culpa

 

Canção do exílio

Quando os sinos tocarem os funerais de minha vida,
eu já terei sido menino, moço, adulto, velho e morto,
se tiver a chance de assistir correr meus anos
da hora de nascer curto e espremido como um choro
à hora de partir longo e doído como um sopro.

Em Sales Oliveira, na velha estação da Mogiana,
que sonha com as linhas que não correm mais seu rosto,
nela, refeita pela prefeitura como patrimônio histórico,
meus tios, minhas tias, mas não meus pais que
[viajarão comigo,
meus italianos magnanellis, meus vogts alsacianos,
[meus andaluzes chimenez
virão de Luca, de Saverne, de Granada,
de Tambaú, da fazenda Resfriado, de muitos cemitérios;
sairão de antigas fotos de onde já saíram
para entrar nos duros quadros dos quartos nas paredes
que o crayon do artista anônimo desfez das dobras de
[incômodos
molduras de distâncias, fantasmas perfilados, etéreos
[como muros.

Meus amigos, se alguns houver que por aí estejam
e as amigas, mesmo aquelas que foram minhas namoradas,
gostaria que esperassem despojadas dos anos,
[dos casamentos, dos filhos e dos ouros,
ausentes de solenidades, conspícuos no silêncio,
não no meu que já será indivisível,
só no deles dividido em solidão.
Quem levará meu corpo que não terá mais chance
[de ser sujo,
quem o vestirá de linho, casimira, gravata como para
[uma festa adolescente,
quem o estenderá entre rosas, círios e olhares,
com o olhar trancado sem alternativas,
a não enxergar de dentro o que vai por fora,
a não ver de fora o que já não está dentro?
Quem saberá comigo − se alguma coisa ainda puder
[saber sozinho –
que meu corpo − assim eu gostaria, se pudesse a
[vontade sem o corpo que a sustenta,
não o corpo limpo feito só de sua presença morta,
mas o corpo impuro e vivo dos gérmens das ausências −
se pudesse, pois, como dizia, ver meu corpo,
[transformado em cinzas,
transformar numa combustão alquímica
o pó vermelho da cidade velha da minha velha infância
no pó enamorado de quem sempre quis amar a vida.

Não quero e não posso dizer lá porque nunca fui
[exilado de mim mesmo,
se bem que os anos que aprendi a viver comigo
sempre tenham sido para ensinar-me a viver com os outros.
De que sou feito senão de diferenças,
e não de mim, do pai, da mãe, do filho, do espírito santo,
mas desta pobre, simples e breve semelhança
em que todos somos feitos dos múltiplos predicados
que ordenam dos odores a evanescência
da luz, as cores
dos sentidos, a vida
da vida, a existência.

O velho Adão, português de origem
empilhava Gil Vicente, Camões, Frei Luiz de Souza,
enquanto declamava os paus de lenha que organizavam
[a geometria do Triângulo,
por onde as máquinas manobravam a sua persistente
[fome de madeira,
trabalho sistemático, empalhado de lembranças e
[nostalgias,
feito de suores, cansaço, frios de madrugadas, cafés
[e versos eloquentes.
Seu Adão participou de todos acontecimentos teatrais
[no cine Santa Rita,
produzidos e dirigidos pela inquietação elegante e
[cosmopolita de Dona Gina
e pela obediência apaixonada de seu Alberto do
[Cartório, seu marido.
Quanto a mim, nunca participei de nenhuma das
[representações promovidas por
[Dona Gina no cine Santa Rita,
embora ela continuasse, desde minha infância ao
[adolescente adulto,
sempre a viajar ao Rio de Janeiro para trazer as
[novidades a que assistia nas suas viagens;
com ela viajamos todos na pequena e acanhada
[Sales Oliveira,
cortada pela poeira e pelas fagulhas da estrada de
[rodagem no calor,
que se entrecortava com a estrada de ferro em pontos
[de poucas e inesquecíveis mortes,
que o tempo fez morrer com as fagulhas e a poeira de
[muitas outras, esquecidas.
Sei que seu Adão estará acompanhado de Dona Xepa,
[Berenice, Deus lhe Pague, Procópio Ferreira,
cheios de sotaque que ora bem calhavam como um
[paradoxo na dignidade altiva de sua profissão,
ora só encalhavam, ou porque o ponto se perdia do texto,
ou porque o texto não chegava ao ponto em que na
[cena se encontrava o ator.

Sei também que não morrerei por esquecimento,
porque disso não se esquecem nem as aves tolas
[nem os cães faceiros;
aqui não há ponto que me ilude, no texto, na marcação,
[no sopro, no improviso.
Só não quero levar esta lembrança antecipada dos
[dias de meus fins,
sem a finalidade clara de ter de suportá-la como
[um segredo útil,
desta utilidade amarga de que se fazem já passados
os doces e feros anos da juventude: foi possível
[improvisar tudo
até mesmo ordenar o acaso na contabilidade triste
[das despedidas
quando os sinos tocarem os funerais de minha vida.

 

Rodrigueana
ou
Da virgindade com erro (gramatical)

Adsolutamente
pura

 

Capital federal

O ar espesso de suspeitas
deixa-se talhar à faca
dos suspeitosos

 

Animal político

Dizem − e parece verdade
pelos casos de ocorrência
muitos de boletim −
que o dinheiro suja as mãos
de dinheiro.

Podem as mãos lamber-se
do dinheiro
como um porco ético
lambuzar-se de limpeza
limpá-lo
sem lavagem?

 

Pascal

(com novos materiais)

O coração dilata
A razão difere

 

Dalmas para Marlowe

A lembrança ou o esquecimento farão de ambos
apenas referência metonímica
e de cada um a metáfora do reaproveitamento
literário.
A música dos quartetos mistos continuará a rasgar
em tiras tão pequenas o que restar das noites
que nós − apesar de todo tédio desprendido −
teremos sabido que não pudemos torná-las menos
miseráveis.

 

Marlowe para Dalmas

É impossível evitar
o saco de cimento.

 

Tempo regulamentar

Em 1.958, na véspera do jogo definitivo da Copa do Mundo,
jogo que o Brasil ganharia de 5 a 2 da Suécia,
mas isso a gente ainda não sabia,
sabia sim que era 28 de junho, sábado, véspera de São Pedro,
dia de festa, de fogueira, pipoca, quentão,
quadrilha, logo mais à noite,
no quintal da casa da menina que nunca foi
minha namorada que eu sempre namorei,
na manhã dos preparativos dos últimos folguedos
[juninos de 1958,
eu, tendo vindo de Ribeirão Preto para as férias de
[meio-de-ano,
gozava a felicidade de estar ali a desfrutar
o longo mês de julho que não decorria,
quando ouvi, na Rádio-Nacional-Rio-de-Janeiro-Brasil,
o locutor que informava com antevisão burocrática
o calendário dos próximos e distantes campeonatos
[mundiais:
A última Copa do Mundo do século XX, a de 1998,
[será na França.
Não sei por quê, mas ali, naquele quintal de chão batido,
naquele fim de rua de Sales Oliveira, de tão poucas ruas,
ali junto com os amigos, as amigas, na confusão dos
[sentimentos adolescentes,
a voz do locutor, disciplinada a mostrar
a organizada previsão do mundo − ao menos no futebol −,
acendeu-me o incômodo sinal de uma pergunta persistente:
− A quem interessaria saber isso de acontecimentos de
[quarenta anos depois,
se ali mesmo nem julho havia começado?
− Como antever a passagem de tanto tempo,
sem a inscrição da vivência degustada de cada instante?
Não sei por que bobagem de cabriolas de pensamento
lembrei-me outro dia dessa impressão do rapazinho
de muitos anos atrás: há quase quarenta anos,
o Brasil venceu a Copa do Mundo na Suécia,
e nada mais.