Mascarada

Tempo regulamentar

Em 1.958, na véspera do jogo definitivo da Copa do Mundo,
jogo que o Brasil ganharia de 5 a 2 da Suécia,
mas isso a gente ainda não sabia,
sabia sim que era 28 de junho, sábado, véspera de São Pedro,
dia de festa, de fogueira, pipoca, quentão,
quadrilha, logo mais à noite,
no quintal da casa da menina que nunca foi
minha namorada que eu sempre namorei,
na manhã dos preparativos dos últimos folguedos
[juninos de 1958,
eu, tendo vindo de Ribeirão Preto para as férias de
[meio-de-ano,
gozava a felicidade de estar ali a desfrutar
o longo mês de julho que não decorria,
quando ouvi, na Rádio-Nacional-Rio-de-Janeiro-Brasil,
o locutor que informava com antevisão burocrática
o calendário dos próximos e distantes campeonatos
[mundiais:
? A última Copa do Mundo do século XX, a de 1998,
[será na França.
Não sei por quê, mas ali, naquele quintal de chão batido,
naquele fim de rua de Sales Oliveira, de tão poucas ruas,
ali junto com os amigos, as amigas, na confusão dos
[sentimentos adolescentes,
a voz do locutor, disciplinada a mostrar
a organizada previsão do mundo ? ao menos no futebol ?,
acendeu-me o incômodo sinal de uma pergunta persistente:
? A quem interessaria saber isso de acontecimentos de
[quarenta anos depois,
se ali mesmo nem julho havia começado?
? Como antever a passagem de tanto tempo,
sem a inscrição da vivência degustada de cada instante?
Não sei por que bobagem de cabriolas de pensamento
lembrei-me outro dia dessa impressão do rapazinho
de muitos anos atrás: há quase quarenta anos,
o Brasil venceu a Copa do Mundo na Suécia,
e nada mais.