Mascarada

Canção do exílio

Quando os sinos tocarem os funerais de minha vida,
eu já terei sido menino, moço, adulto, velho e morto,
se tiver a chance de assistir correr meus anos
da hora de nascer curto e espremido como um choro
à hora de partir longo e doído como um sopro.

Em Sales Oliveira, na velha estação da Mogiana,
que sonha com as linhas que não correm mais seu rosto,
nela, refeita pela prefeitura como patrimônio histórico,
meus tios, minhas tias, mas não meus pais que
[viajarão comigo,
meus italianos magnanellis, meus vogts alsacianos,
[meus andaluzes chimenez
virão de Luca, de Saverne, de Granada,
de Tambaú, da fazenda Resfriado, de muitos cemitérios;
sairão de antigas fotos de onde já saíram
para entrar nos duros quadros dos quartos nas paredes
que o crayon do artista anônimo desfez das dobras de
[incômodos
molduras de distâncias, fantasmas perfilados, etéreos
[como muros.

Meus amigos, se alguns houver que por aí estejam
e as amigas, mesmo aquelas que foram minhas namoradas,
gostaria que esperassem despojadas dos anos,
[dos casamentos, dos filhos e dos ouros,
ausentes de solenidades, conspícuos no silêncio,
não no meu que já será indivisível,
só no deles dividido em solidão.
Quem levará meu corpo que não terá mais chance
[de ser sujo,
quem o vestirá de linho, casimira, gravata como para
[uma festa adolescente,
quem o estenderá entre rosas, círios e olhares,
com o olhar trancado sem alternativas,
a não enxergar de dentro o que vai por fora,
a não ver de fora o que já não está dentro?
Quem saberá comigo ? se alguma coisa ainda puder
[saber sozinho –
que meu corpo ? assim eu gostaria, se pudesse a
[vontade sem o corpo que a sustenta,
não o corpo limpo feito só de sua presença morta,
mas o corpo impuro e vivo dos gérmens das ausências ?
se pudesse, pois, como dizia, ver meu corpo,
[transformado em cinzas,
transformar numa combustão alquímica
o pó vermelho da cidade velha da minha velha infância
no pó enamorado de quem sempre quis amar a vida.

Não quero e não posso dizer lá porque nunca fui
[exilado de mim mesmo,
se bem que os anos que aprendi a viver comigo
sempre tenham sido para ensinar-me a viver com os outros.
De que sou feito senão de diferenças,
e não de mim, do pai, da mãe, do filho, do espírito santo,
mas desta pobre, simples e breve semelhança
em que todos somos feitos dos múltiplos predicados
que ordenam dos odores a evanescência
da luz, as cores
dos sentidos, a vida
da vida, a existência.

O velho Adão, português de origem
empilhava Gil Vicente, Camões, Frei Luiz de Souza,
enquanto declamava os paus de lenha que organizavam
[a geometria do Triângulo,
por onde as máquinas manobravam a sua persistente
[fome de madeira,
trabalho sistemático, empalhado de lembranças e
[nostalgias,
feito de suores, cansaço, frios de madrugadas, cafés
[e versos eloquentes.
Seu Adão participou de todos acontecimentos teatrais
[no cine Santa Rita,
produzidos e dirigidos pela inquietação elegante e
[cosmopolita de Dona Gina
e pela obediência apaixonada de seu Alberto do
[Cartório, seu marido.
Quanto a mim, nunca participei de nenhuma das
[representações promovidas por
[Dona Gina no cine Santa Rita,
embora ela continuasse, desde minha infância ao
[adolescente adulto,
sempre a viajar ao Rio de Janeiro para trazer as
[novidades a que assistia nas suas viagens;
com ela viajamos todos na pequena e acanhada
[Sales Oliveira,
cortada pela poeira e pelas fagulhas da estrada de
[rodagem no calor,
que se entrecortava com a estrada de ferro em pontos
[de poucas e inesquecíveis mortes,
que o tempo fez morrer com as fagulhas e a poeira de
[muitas outras, esquecidas.
Sei que seu Adão estará acompanhado de Dona Xepa,
[Berenice, Deus lhe Pague, Procópio Ferreira,
cheios de sotaque que ora bem calhavam como um
[paradoxo na dignidade altiva de sua profissão,
ora só encalhavam, ou porque o ponto se perdia do texto,
ou porque o texto não chegava ao ponto em que na
[cena se encontrava o ator.

Sei também que não morrerei por esquecimento,
porque disso não se esquecem nem as aves tolas
[nem os cães faceiros;
aqui não há ponto que me ilude, no texto, na marcação,
[no sopro, no improviso.
Só não quero levar esta lembrança antecipada dos
[dias de meus fins,
sem a finalidade clara de ter de suportá-la como
[um segredo útil,
desta utilidade amarga de que se fazem já passados
os doces e feros anos da juventude: foi possível
[improvisar tudo
até mesmo ordenar o acaso na contabilidade triste
[das despedidas
quando os sinos tocarem os funerais de minha vida.